20/02/2026 08h57 - Atualizado em 20/02/2026 09h30

As lendas que vivem no imaginário popular do Espírito Santo

Por trás da história do Espírito Santo existe um rico universo de lendas que fazem parte da memória afetiva e cultural do povo capixaba. São narrativas repletas de mistério, emoção, conflitos e ensinamentos, transmitidas de geração em geração, que ajudam a explicar a origem de lugares, monumentos naturais e costumes do estado. Muitas dessas histórias estão ligadas a pontos turísticos conhecidos, como montanhas, lagoas e cidades históricas, encantando moradores e visitantes que passam por esses cenários cheios de simbolismo.

As lendas são narrativas de caráter fictício que misturam fatos reais e elementos históricos com acontecimentos sobrenaturais e frutos da imaginação popular. Essa combinação entre realidade e fantasia torna cada história ainda mais envolvente, pois cria um elo entre o passado e o imaginário coletivo. Por isso, é comum encontrarmos lendas que envolvem figuras indígenas, religiosos, criaturas misteriosas, fenômenos da natureza e personagens do cotidiano transformados em símbolos culturais.

No Espírito Santo, o folclore é fortemente influenciado pelas heranças indígena, africana e europeia, o que torna suas lendas diversas e cheias de significados. Elas não apenas entretêm, mas também transmitem valores, explicam comportamentos e preservam tradições. Mesmo aquelas já bastante conhecidas continuam despertando curiosidade e sendo recontadas em escolas, festas populares e encontros culturais.

Conheça algumas dessas lendas marcantes do folclore capixaba:

 

O POÇO DE ANCHIETA

A lenda conta que, durante uma forte e prolongada seca em Anchieta, a população sofria com a falta de água, pois fontes e rios estavam secando. Desesperados, os moradores recorreram ao padre José de Anchieta, seu líder espiritual. Comovido com o sofrimento do povo, Anchieta rezou e, com seu cajado, feriu a terra, fazendo brotar milagrosamente uma fonte de água pura que encheu um poço. Esse poço, conhecido como Poço de Anchieta, é lembrado até hoje como símbolo do milagre e da fé do povo capixaba.

O PENEDO

Logo na entrada do Porto de Vitória, destaca-se o imponente Penedo, situado em frente ao antigo Forte de São João. Coberto por gravatás e outras plantas típicas de rocha, ele é um dos grandes símbolos da paisagem capixaba.

Envolto em lendas desde os tempos da colonização, o Penedo é considerado mágico. Diz a tradição, que os viajantes devem lançar moedas ao passar por ele, pois, se a oferenda tocar o rochedo, ele retribui com felicidade. Conhecido como a sentinela de Vitória, a lenda ainda conta que em seu interior existe um palácio encantado, habitado por fadas e príncipes.

 

A ÁRVORE NEGRA DO QUEIMADO

A Insurreição do Queimado, ocorrida em 1849, é considerada um dos episódios mais dolorosos do século XIX em Serra, no Espírito Santo. Liderada por Elisiário, a revolta expressava o desejo de liberdade dos escravizados. Após fugir da prisão em Vitória, Elisiário refugiou-se nas matas da Serra, onde passou a ser perseguido em uma intensa caçada humana. Enfrentando fome, cansaço e solidão, desapareceu na floresta, sem que seu corpo jamais fosse encontrado.

Com o tempo, surgiram lendas sobre sua morte. Conta-se que, nas matas do Queimado, aparecia o vulto de uma grande árvore negra, semelhante a uma cabiúna, que marcaria sua sepultura. A figura desaparecia quando alguém tentava se aproximar. Assim, entre história e mito, a memória de Elisiário permaneceu viva no imaginário popular como símbolo de luta e liberdade.

 

O FRADE E FREIRA

Frade e Freira é um conjunto de dois rochedos de granito, localizados entre Rio Novo do Sul e Cachoeiro de Itapemirim. As formações lembram as figuras de um monge e uma freira, o que inspirou uma das mais belas lendas capixabas.

Segundo a tradição, a história fala do amor impossível entre um jovem missionário e uma índia goitacá. Enquanto ele pregava o amor divino e mantinha-se fiel ao seu dever religioso, ela se apaixonava e desejava viver ao seu lado, longe de todos. Ao subirem um monte para contemplar o mar, um forte estrondo ecoou; ela clamou por Tupã e ele por Deus. Ambos teriam sido soterrados, e, com o tempo, a natureza revelou no alto do monte as duas esculturas de pedra que simbolizam o frade e a freira — eternizando em granito esse amor impossível.

 

A BACIA DE OURO DA COBIÇA

Cobiça é um local no município de Cachoeiro de Itapemirim, cercado por montanhas e antigas matas, onde existia um profundo desfiladeiro escondido na floresta. Conhecido como “Bacia de Ouro”, o lugar inspirou uma lenda popular: à noite, fadas e anões se reuniriam ali para festas em um palácio subterrâneo iluminado por pedras preciosas, luar e vagalumes.

 

A PEDRA DA EMA

A lenda conta que, em Burarama, há um sino de ouro enterrado por um escravo após a morte de seu senhor, um fazendeiro que foi morto durante uma expedição em busca de ouro. O sino estaria escondido junto à Pedra da Ema e protegido por espíritos que se reúnem à meia-noite sob uma sapucaieira. Muitos já tentaram encontrar o tesouro, mas sem sucesso. Diz ainda a lenda que o fazendeiro voltou na forma de uma ave, pois sua alma, presa ao ouro, ainda busca a liberdade.

 

O PÁSSARO DE FOGO

A lenda conta o amor proibido entre Jaciara, princesa da tribo dos Botocudos, e Guaraci, guerreiro dos Temiminós, povos rivais que habitavam a região onde hoje ficam Cariacica e Serra. Impedidos de viver esse sentimento, os dois passaram a se encontrar com a ajuda de uma ave misteriosa. Ao descobrirem o romance, os líderes da tribo recorreram a forças sobrenaturais, e os jovens foram transformados em pedra.

Assim surgiram os montes Moxuara, em Cariacica (Jaciara), e Mestre Álvaro, na Serra (Guaraci), que permanecem frente a frente até hoje, simbolizando esse amor eterno. Segundo a tradição, na noite de São João (24 de junho), um pássaro de fogo cruza o céu entre os dois montes, levando juras e presentes, sinal de que o casal revive, por instantes, sua história de amor.

 

SERPENTE DO CEMITÉRIO

A lenda de Águia Branca conta que uma filha cruel maltratava a mãe e, ao vê-la sofrer, era amaldiçoada com a profecia de que se transformaria em uma serpente após a morte. Quando a jovem morreu e foi enterrada, moradores passaram a ouvir ruídos, gemidos e sons de correntes no cemitério. Diz-se que ela se transformou em uma serpente monstruosa, semelhante a um dragão, que circulava o túmulo, cujas rachaduras sempre reapareciam mesmo após reparos. A história espalhou medo na cidade e reforça, entre as crianças, a crença de que quem desrespeita os pais pode virar serpente.

ILHA ESCALVADA

A famosa Ilha Escalvada, de Guarapari, também é conhecida como Ilha do Farol, uma área de proteção ambiental a cerca de 6 milhas da costa. O local abriga um farol e, após sua modernização, os antigos cilindros de gás foram descartados no mar, formando um ponto de mergulho bastante procurado.

A lenda local diz que a ilha é encantada: em certos dias, ela muda de forma e pode parecer um barco, uma baleia, um castelo, uma tartaruga, entre outras figuras, fenômeno observado por muitos turistas. Segundo a tradição, uma bruxa muito bela vivia ali e, com a construção do farol, se transformou em golfinho e passou a viver em uma gruta submersa. Quando sopra o vento nordeste, ela lidera os golfinhos para proteger os mergulhadores, e é nessa época que a ilha se metamorfoseia.

 

MÃE-BÁ

A Lenda da Mãe-Bá conta que, em Guarapari, uma tribo indígena vivia às margens de uma grande lagoa e era liderada por BÁ, uma velha índia curandeira e protetora, considerada mãe de todos. Quando um menino adoeceu e ela não conseguiu curá-lo com seus conhecimentos, decidiu fazer uma oferenda aos deuses da natureza na lagoa. Durante o ritual, algo misterioso aconteceu: sua canoa virou e ela morreu. Após encontrarem seu corpo, os índios o cremaram e lançaram as cinzas na lagoa. Depois disso, houve grande abundância de peixes, e o local passou a se chamar Lagoa de Mãe-Bá, em sua homenagem.

 

MÃE DO OURO

A lenda da Mãe do Ouro conta sobre uma menina muito bonita, loira de olhos azuis, que se transforma em ouro em pó se alguém cortar o dedo e deixar cair três gotas de sangue sobre sua cabeça. Certa vez, Manoel e três companheiros de Muquiçaba, Guarapari, foram buscar lenha na mata. Manoel encontrou a misteriosa garota, que parecia perdida, mas ela desapareceu e o fez se perder na floresta. Ao relatar o ocorrido, seus amigos ficaram indignados, pois ele teria perdido a única chance da vida de transformar a Mãe do Ouro em ouro e ficar rico.

 

PRAIA DOS PADRES

A Lenda da Praia dos Padres diz que a região de Meaípe, Guarapari, era considerada assombrada pelos moradores antigos, porque à noite eles ouviam vozes e conversas de pescadores como se os barcos estivessem se aproximando, mas ao chegar à praia não encontravam nada além de água e ondas. Também escutavam gritos e risadas, como se a praia estivesse cheia de veranistas, e o mar subia tanto que deixava as raízes das castanheiras parecidas com dedos de bruxa.

Assustados, os moradores passaram a levar todo padre que chegava ali para benzer e rezar a praia, o que deu origem ao nome Praia dos Padres.

 

LAGARTO DA PEDRA AZUL

A lenda da Pedra Azul conta que um grande lagarto azul vivia na região de Domingos Martins com medo de perder seu lugar para o povo da montanha. Após conflitos, dois garotos aventureiros conseguiram petrificá-lo para proteger a comunidade. Transformado em pedra, ele passou a ser visto como um irmão ancestral que protege a região. Segundo a tradição, o lagarto pode voltar à vida a qualquer momento, e o povo da montanha aguarda esse possível retorno com expectativa.

 

JAGUARÁ

A lenda do Jaguará surgiu quando jesuítas catequizavam indígenas e usavam a história de um cavalo que saía do lodo para assustar e impedir fugas. Com o tempo, a narrativa virou folclore. O Jaguará é descrito como uma criatura assustadora, mistura de gente e animal, semelhante a uma mula preta com chifres. Em Apiacá, a figura é representada como um crânio de cavalo em uma ponta de bambu e faz parte de uma festa popular, junto com mulinhas e bois pintadinhos. No teatro interativo, os jaguarás assustam enquanto as mulinhas “protegem” os bois das brincadeiras das crianças.

O MILAGRE DO SINO

Entre as lendas do Convento da Penha, localizado em Vila Velha, destaca-se a do “Milagre do Sino”. Conta a tradição que, na noite em que Frei Pedro Palácios – fundador do santuário e responsável por trazer da Europa a imagem de Nossa Senhora da Penha – morreu ajoelhado em oração, os sinos tocaram sozinhos, anunciando o acontecimento.

Na manhã seguinte, o povo subiu a montanha e encontrou o frei ainda de joelhos, com as mãos postas no altar. Desde então, acredita-se que os sinos do convento dobram misteriosamente em momentos marcantes ou de perigo, mantendo viva a memória do religioso e reforçando o caráter sagrado do santuário.

 

PAINEL PENHA

 

A lenda do painel de Nossa Senhora da Penha conta que Frei Pedro Palácios trouxe da Europa uma valiosa pintura da Virgem com o Menino Jesus e a colocou numa pequena capela ao pé do Monte das Palmeiras. Porém, o quadro desaparecia misteriosamente e era sempre encontrado no alto do monte, entre duas palmeiras. A cada vez que o painel retornava ao topo, a comunidade entendia que a Virgem queria morar ali.

Após repetidos episódios, os moradores, guiados por Frei Pedro Palácios, construíram uma pequena ermida no cume em 1566, onde o painel foi finalmente instalado. Assim nasceu a Ermida das Palmeiras, que mais tarde deu origem ao Convento da Penha, tornando-se um dos principais santuários do Espírito Santo, em Vila Velha.

Entre montanhas cobertas de névoa, praias de mar agitado e vilas antigas que guardam segredos no silêncio das noites, as lendas capixabas seguem vivas na memória do povo do Espírito Santo. Histórias e mistérios que envolvem e reforçam a riqueza cultural de um estado onde tradição e imaginação caminham lado a lado. Essas lendas são parte da identidade capixaba, ecos do passado que atravessam gerações, alimentam o imaginário popular e mantêm acesa a chama da cultura local. 

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